Como o caso de mulher que trabalhou 55 anos sem salário expõe a relação entre trabalho doméstico e racismo no Brasil

  • 11/07/2026
(Foto: Reprodução)
A relação entre trabalho doméstico e racismo no Brasil Mulher, negra, analfabeta: este é o perfil da idosa de 62 anos resgatada em situação análoga à escravidão em um condomínio de luxo na cidade de Eusébio, no Ceará, em junho deste ano. O caso teve repercussão nacional e, segundo especialistas consultados pelo g1, mostra como o trabalho doméstico ainda carrega marcas do racismo e da herança escravocrata do Brasil. A vítima trabalhava para a mesma família desde os sete anos de idade. Ao longo de 55 anos, não recebeu salário. Ela limpava a casa, cozinhava e cuidava das crianças. Além disso, não teve vida pessoal. Não aprendeu a ler nem a escrever. Nunca namorou. "Teve a subjetividade roubada”, resume a antropóloga Izabel Accioly. Imagem ilustrativa: especialistas analisam como trabalho doméstico ainda carrega marcas do racismo e da herança escravocrata do Brasil. Divulgação Segundo o historiador, pesquisador e professor adjunto da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Arilson dos Santos Gomes, a relação entre trabalho doméstico e racismo só pode ser entendida a partir do período pós-abolição. De acordo com ele, a libertação dos escravizados no Brasil ocorreu sem estrutura e sem apoio para a população negra. Isso provocou uma ruptura social, já que os negros libertos não foram integrados de forma adequada à sociedade, sendo empurrados para trabalhos precários. Para o pesquisador, os efeitos desse processo ainda aparecem em vários setores da sociedade, especialmente nas desigualdades do mercado de trabalho. “O vínculo do trabalho doméstico com o racismo é um vínculo histórico, porque quem trabalhou durante a construção do Brasil, durante muito tempo, foram os escravizados que, posteriormente, se tornaram libertos e libertas. A questão é que esse trabalho não era só nas lavouras, se dava também dentro de casa, no campo privado”, explica. Arilson afirma que a exploração fica ainda mais difícil de perceber quando acontece dentro de casa. No caso da mulher resgatada em Eusébio, a família a chamava de “mãe pretinha” ou “vó pretinha”, segundo a fiscal que atuou no caso. Para o pesquisador, esse tipo de tratamento mostra como a vítima era vista pelos exploradores. “No campo privado criou-se o modelo, sobretudo relacionado às mulheres negras, da ama de leite, da mucama. Ela estava dentro de casa prestando diversos serviços. Quando você tem a transformação do trabalho, você tem as criadas continuando no mesmo lugar. É a reprodução das mulheres negras dentro das casas fazendo esse trabalho. Não tem uma mudança de mentalidade na cultura brasileira. Os estigmas continuam”. Apesar de ser tratada como alguém “da família”, a mulher não tinha os mesmos direitos e privilégios dos demais moradores. Não teve acesso à educação nem descanso adequado. Ela acordava às 4h30 para preparar o café da manhã e cuidar da rotina das crianças da casa. Para Arilson, a ideia de que a trabalhadora é “da família” e recebe “carinho e afeto” ajuda a esconder a exploração. Segundo ele, esse pensamento tem relação com o mito da democracia racial, muito difundido no Brasil no século passado. “Essa ideologia está atrelada à ideia de que a relação, por ser dentro de casa, é mais harmônica. Mas, na realidade, tem ainda uma exploração profunda, relacionada a corpos que, antes escravizados, passam a ser tratados como corpos inferiores”. ‘Subjetividade roubada’ O caso da mulher resgatada em Eusébio também causou indignação na antropóloga Izabel Accioly. Para ela, um dos problemas é a forma como situações assim ainda são tratadas como algo normal por parte da sociedade. Segundo a pesquisadora, esse tipo de violência não é isolado. É estrutural. No Ceará, outro caso parecido foi descoberto em 2025, na cidade do Crato. Uma idosa de 61 anos foi resgatada depois de passar quase 30 anos sem contato com a família. Ela não recebia salário, folgas nem férias. Também fazia tarefas como varrer a casa, lavar roupas, cozinhar e cuidar dos animais. “É tão estrutural que a gente naturaliza, inclusive, o modo como fala dessa trabalhadora. Vamos pensar bem nessa palavra doméstica: é bem típico do período colonial, em que tinham trabalhadores que ficavam fora da casa, que eram os trabalhadores mais 'brutalizados', e os trabalhadores domésticos, do lar. Era aquela pessoa que ficava dentro da sua casa e que você 'domestica' no sentido de amansar”, reflete. Momento antes do resgate da trabalhadora em condomínio de luxo na região metropolitana de Fortaleza Divulgação Outro ponto destacado por Izabel é que a vida da mulher foi completamente controlada pelos exploradores. Segundo os fiscais do trabalho, a idosa não tinha autonomia, não possuía conta bancária, não sabia lidar com dinheiro e estava há anos sem falar com a própria família. “A pessoa é alienada, inclusive, do que é o afeto, porque esse afeto foi muitas vezes usado como uma linguagem para administrar essa desigualdade. Não só nesse caso, mas no Brasil inteiro. A gente não tem nenhum outro país do mundo que tenha pequenas senzalas acopladas nas casas. Não tem nenhum outro país do mundo com esse nível de contato com trabalhadoras domésticas”. De acordo com a antropóloga, o trabalho doméstico herdou traços do período colonial brasileiro e "a senzala passou a ser substituída pelo quarto da empregada". O cômodo mostra como o racismo muda de forma, mas continua presente, e ajuda a manter uma sociedade hierarquizada. Eu acho que os mecanismos que ajudam isso a se manter se deve à atualização do racismo estrutural. Quando a gente pensa na escravização, vêm à memória a corrente, a senzala, os castigos físicos. Mas, a senzala foi substituída pelo quarto de empregada. A corrente virou a alienação. O cárcere, na verdade, ele tem agora uma aparência de afeto. O racismo se atualiza para se manter. O trabalhador merece ter seus direitos respeitados e garantidos. O afeto não paga. A antropóloga avalia que vítimas de casos como este do Eusébio precisam de tempo, paciência e apoio especializado para reparar anos de alienação. Tentar reconstruir a vida pode ser um processo difícil e doloroso, especialmente quando o vínculo exploratório começa cedo. "Eu fico imaginando essa mulher tendo uma casa própria e cuidando dessa casa que é dela, que não é dos outros, que não tem que pedir nada para ninguém, em que ela é a senhora dessa casa. Eu espero profundamente que toda a equipe técnica que a acompanha tenha muito sucesso nisso. Tem um período de despertar que pode ser muito doloroso, mas espero que depois de toda essa dor, ela consiga vislumbrar a liberdade", conclui a especialista. Enquanto aguarda reencontrar sua família, a idosa vai permanecer na casa dos empregadores. Uma decisão complexa, mas que segundo Maria Neuzeli, auditora fiscal do Trabalho e coordenadora do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) para erradicação do trabalho escravo doméstico, precisou ser tomada. "Quando o ambiente de trabalho se confunde com o ambiente de moradia, o caso se torna muito complexo. Essa trabalhadora foi induzida durante 55 anos a pensar que fazia parte dessa família. Ela nunca constituiu família, nunca namorou, era analfabeta, não tinha gestão financeira, não tinha nenhum recurso, nunca administrou nada dela. Permaneceu a vida toda trabalhando em troca de afeto, moradia e alimentação", comenta. Após o resgate, ela foi afastada das atividades laborais e recebe acompanhamento dos profissionais da Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará (CRDH/Sedih). O objetivo das autoridades nesta segunda etapa é ajudar a vítima a criar autonomia, aprender a ler e escrever, criar laços de amizade e refazer contato com a própria família. Já os empregadores firmaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT), no qual assumiram obrigações destinadas à proteção social da trabalhadora, como a regularização dos recolhimentos previdenciários relativos ao período reconhecido, pagamento de R$ 50 mil a título de verbas rescisórias e aquisição de um imóvel residencial em favor da trabalhadora. Os empregadores devem começar a pagar salário e indenização para a vítima de imediato. Conforme o TAC, os empregadores da mulher foram identificados como: Paulo Martins Brasil - aposentado, casado com Aurora; Aurora Dalva Bastos de Alencar Brasil - aposentada, casada com Paulo; Paulo Martins Brasil Filho - advogado; Zaamarah Alencar Brasil Andrade - servidora pública, casada com Tiago; Tiago Silva Andrade - médico veterinário, casado com Zaamarah; Nayarah Alencar Brasil Magalhães, empregada pública. Em nota enviada pela assessoria de comunicação dos advogados de defesa dos patrões, a família empregadora da doméstica "nega com veemência as acusações divulgadas até o momento, que não retratam a relação de convivência, cuidado e afeto construída ao longo de décadas com a senhora envolvida. Lamenta, ainda, que julgamentos precipitados tenham sido tornados públicos". "Ressalta-se que em nenhum momento houve resgate, uma vez que ela permanece convivendo com a família em uma relação que apresenta características pessoais e familiares incompatíveis com conclusões simplificadas", alega a família. Direitos garantidos em lei Ceará tem quase 200 mil empregados domésticos Atualmente, o Brasil tem mais de 6 milhões de empregados domésticos, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de dezembro de 2023. As trabalhadoras domésticas são a principal categoria da força de trabalho remunerada de cuidados no país, representando 25% desse total, segundo o Ministério do Trabalho. O setor doméstico no Brasil sempre foi marcado pela informalidade e pela baixa proteção social. Em 2013, no entanto, a chamada PEC das Domésticas ampliou os direitos da categoria e mudou um pouco esse cenário. A medida garantiu, entre outros pontos: jornada de 8 horas por dia e 44 horas por semana; pagamento de horas extras; adicional noturno; intervalo de no mínimo 1 hora e no máximo 2 horas; recolhimento obrigatório do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS); seguro-desemprego; salário-família; auxílio-creche e pré-escola; seguro contra acidentes de trabalho; indenização em caso de demissão sem justa causa. Mesmo com esse avanço, o número de trabalhadores domésticos com carteira assinada caiu 21,1% entre 2016 e 2025. Mulheres, pessoas negras e trabalhadores com mais de 50 anos seguem como maioria no setor. Leia aqui reportagem do g1 sobre o tema. Nacionalmente, a porcentagem de trabalhadoras domésticas que atuam sem carteira assinada é de 75%, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social. Desse total, apenas 36% contribuem para a Previdência Social. A pesquisa ainda traça o perfil das trabalhadoras. Veja: 75% não têm carteira assinada 57,1% são chefes de família 34% são mães solo 70% relatam sofrer com cansaço crônico Perfil dos trabalhadores formais g1 Já no Ceará, 198 mil pessoas desempenham o trabalho doméstico, mas somente 27 mil tem carteira assinada, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "Em regra, todo trabalhador doméstico vai ter carteira assinada, só existe uma exceção: aqueles diaristas que fazem trabalhos até duas vezes por semana. Três vezes por semana [na mesma casa] já configura vínculo de emprego", explica Daniel Ârea, auditor-fiscal do Trabalho, em entrevista à TV Verdes Mares. Os dados chamam atenção para possíveis irregularidades, que podem ser denunciadas por qualquer pessoa. Uma das principais ferramentas é o Disque 100, que é gratuito e garante anonimato. Foi por este canal que o caso da idosa de 62 anos foi descoberto. As denúncias também podem ser feitas por meio do Sistema Ipê, no endereço ipe.sit.trabalho.gov.br/. "Ela pode juntar provas como filmagens, trocas de mensagens, testemunhas, o recibo do salário, transferências bancárias... Essas são provas que podem auxiliar ela nessa demanda judicial", reforça Alisson Sales, advogado trabalhista. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/07/11/como-o-caso-de-mulher-que-trabalhou-55-anos-sem-salario-expoe-a-relacao-entre-trabalho-domestico-e-racismo-no-brasil.ghtml


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